17 de outubro de 2011

Ah, eu gostaria de ter asas II

De repente, ali estava. Na beirada, como da última vez.
-Ei, Cas.
-Olá, minha menina.
-Por que está usando suas asas hoje?
-Pensei que gostasse delas.
-Não seja bobo. Ou melhor, não me faça de boba. Se veio me buscar, vamos logo. Estou pronta.
-Não, pequena. Vim pra te lembrar que está viva. Levanta-te! Quebra essa casca dura que te impede de executar até o mais simples movimento.
-Tenho medo, você sabe. E odeio sentir medo.
-Mas que graça teria se o sinistro medo sumisse de súbito?
-Olha como são lindas aquelas margaridas naquele pasto lá longe... Imagino como seria caminhar entre elas.
Vislumbrei a paisagem.
-Sabe que pularei e te salvarei como da outra vez, não é? Pois bem. Descobre a que veio, e então irá.
E dessa vez, foi ele quem pulou.



*Pra fazer o mínimo de sentido: Ah, eu gostaria de ter asas

2 de agosto de 2011

Be my baby.

Sabe do que acabo de lembrar? Aquela manhã, na biblioteca. Você ali, tão em paz folheando livros e dentro de mim um pandemônio completo. Diga a ela. Diga agora. Só tem vocês duas aqui!
Tremia. O fone no ouvido, tocava The Fray pela milésima vez.
 
If I don't say this now I will surely break
As I'm leaving the one I want to take
Forgive the urgency but hurry up and wait
My heart has started to separate
 Oh, oh Be my baby, I'll look after you.. 

Seja minha garota - eu queria te dizer. Eu vou cuidar de você. Abri a boca:
- E-er. E-eu... - Gaguejei.
 Fui fraca, covarde. "Mensagem enviada com sucesso!". Corri.
 - O que você tem? Parece Mal de Parkinson. 
- Tô com frio, me deixa.
- Mas o dia está tão ensolarado.
E tava um sol dos infernos mesmo. Dentro de mim.
Sorri.


*Se eu não disser isso agora eu certamente enlouquecerei
Como se deixasse a única coisa que quero ter
Perdoe a urgência, mas apresse-se e espere
Meu coração começou a se partir.

22 de maio de 2011

Apelo ao meu coraçãozinho de pêlo.



Ainda lembro de te ver saltitar ronronando em minha direção. E que apenas com um grito, lá estava. Lembro de como você odiava atenção dividida e ver uma porta fechada e de como ocupava todos os lugares da casa. Onde estás, pequenina? Eu não te vejo. Não estás aqui a me aquecer e meus pés estão frios como gelo. Por que sumistes? Não sabes que te preciso aqui? Sempre fostes minha companhia madrugada a dentro, em noites vazias. Onde estás, minha menina? Volte! Tão ágil, tão pequenininha, tão peludinha. Use seus poderes mágicos e pule de repente no meu colo. Mie indignada à minha porta fechada. Não gaste suas muitas vidas longe de mim. Volte. Eu sinto tanta saudade e simplesmente não consigo te deixar ir.


"(...) Você está quase sempre perto de mim, quase sempre presente em memórias, lembranças, estórias que conto às vezes, saudade..."

18 de abril de 2011

Margaridas não têm espinhos.

Sentada na minha cama, olhei em volta. Bem em cima da cômoda um porta-retrato com a foto de duas margaridinhas. Sorri por um momento, mas o sorriso foi se derretendo. Levantei-me e o segurei. "Olá, Margaridinha. Não posso te manter presa aqui, sabe. Longe do sol. Corres o risco de desgastar-se com a friagem úmida do meu quarto."
Segurava tão forte que o vidro se quebrou, cortando as minhas mãos. Retirei a foto de entre os cacos e a rasguei em vários pedacinhos. Joguei-os pela janela na brisa que passava e fiquei ali a observar seu vôo, seu brilho na luz do sol que se punha. "Margaridinha linda, não és mais minha. Segue agora feliz pelos ventos da vida."
E os meus olhos arderam quando a janela foi fechada.

Não vou roubar teu tempo, eu já roubei demais 

Your eyes were cold as ocean ♪

- Quem é aquela menina?
- Que menina?
- Aquela ali, com fones. Bastante concentrada no papel em que escreve.
- Ah, aquela menina.
- Uhum, ela é estranha né?
- Estranha como?
- Sei lá, parece que ela não existe pra vida.
- Hm, é. Ela fica tão imóvel que nem parece real.
- É, as vezes parece fantasma.
- Eu hein, Deus me livre.
- Não gosto de olhar pra ela.
- Né? Tem uns olhos assim frios. As vezes é como se ela olhasse através de nós.
- Shh! Para de falar, ela tá encarando a gente.