17 de maio de 2015

incoerências

              Tem um pensamento que me deixa automaticamente de mau humor quando eu acordo. E que me dá uma vontade incontrolável de quebrar coisas. E é esse mesmo pensamento que me deixa inerte um dia inteiro, sentada na minha cama ouvindo músicas que não tem nenhuma letra, assistindo filmes que não tem final, contando passarinhos que passam voando pela janela. Só hoje foram 14. São 14h. É a quinta vez que a náusea me faz levantar. Na boca, o gosto acre de ressaca. Encaro o espelho do banheiro, de quem são esses olhos? O sangue escorre pelo nariz, limpo com as costas da mão. Olho a gota solitária que contrasta com o branco da pia. Eu tava pensando em quê? Nem lembro agora. Volto ao meu quarto. Volto à inércia. Volto a inexistir.





Eu tinha um amor, eu era bem melhor, mas tudo deu um nó.

29 de abril de 2015

Sustainable self-destruction

           Foi em um desses tropeços que eventualmente a vida faz a gente dar, que ela caiu e machucou feio o coração. Mas o que ficou evidente foi que: o motivo do tropeço foi a pressa. E ela amava do mesmo jeito que bebia seus drinks: de um gole só. E gostava de amores no mesmo teor alcoólico do seu gim: bem fortes. E nessa de beber e amar depressa, ela estava bêbada. E nesse andar embriagado, ela constantemente tropeçava. E aí ela teve a mais estranha epifania: a gente vive achando que é imortal. E entre doses de vodca e amores fortes, ela nem sabia que podia morrer. Ou talvez soubesse e fosse esse o motivo maior de todos. É porque as vezes a gente se sabota sem nem perceber. E pior: as vezes de propósito. 
           E se tem uma coisa na qual ela era expert, era em auto-sabotagem. 

14 de abril de 2015

10 days without an accident

               

          Tenho assistido a vários filmes péssimos como se você os estivesse assistindo comigo, porque eu sei que eles te irritariam bastante. E porque eles são tão ruins que por alguns minutos eu paro de pensar em você e passo a pensar em como alguém foi capaz de ter uma ideia de filme tão estúpida e quem seria tão mais estúpido ainda de financiar aquilo. E esses minutos são curtos, porém tranquilos. 
           Me sinto presa naquela parte clichê daqueles filmes clichês (que eu não consigo parar de ver), quando a moça tá bem triste porque algo não deu certo no romance que parecia perfeito desde o início do filme. E fica escutando música de fossa e andando pela cidade que parece estar muda e meio cinza. Aqueles 10 minutos antes de chegar no final quando tudo se resolve com um ato louco e desesperado de amor. Mas eu nunca chego no final. Ninguém bate à minha porta às 3 da manhã me dizendo o quão erradas estávamos de não ter arriscado e que dali em diante ficaríamos bem. Ninguém me escreve um pedido apaixonado com um avião desenhando nuvens de fumaça no céu. Ninguém me sequestra num balão colorido com destino desconhecido ou me dedica uma música no show da minha banda preferida. Ninguém telefona numa madrugada inóspita dizendo que ouviu uma canção e que lembrou de mim e que, pra falar a verdade, sente muita saudade mesmo do nosso pequeno caos. Ninguém veio. E a cidade continua cinza. E a música triste ainda toca. E aqueles 10 minutos já viraram 10 dias.

5 de abril de 2015

Canto da sereia

            


             Ela tem dedos leves que quando se entrelaçam no meu cabelo, lembram as mãos também leves -porém enrugadas - daquela vó que costuma fazer tranças. Ela tem mãos tão leves que quando roçam a minha pele imitam o roçar de milhares de cílios de milhares de anjos. Ela tem o cheiro de uma manhã ensolarada de domingo e fala num tom de voz tão manso e apaixonante quanto aquelas músicas daquela banda que costumava ser sua favorita, e não há nada que ela pudesse me pedir com aquela voz que eu não fizesse. Ela se move lenta e ritmada como a maré quando tá enchendo e puxa a gente pro fundo. E se a gente não nada rápido de volta pra beirada, se afoga. Eu me afoguei. E nem me debati, só deixei ela ir me puxando pro fundo do mundo dela. E não nadei contra, porque eu queria mesmo que ela me levasse, talvez porque se afogar no cheiro dos cabelos dela me fizesse esquecer que eu tava afundando. Ela é como aquele peixe que vive no mais profundo do oceano e encanta suas vítimas com uma luz esperançosa, e de uma só vez os engole. E os devora. O devorador de almas. E ela me devorava. E ela me virava do avesso e de volta. Mas nessas horas ela me sorria de um jeito que me fazia sentir como se tivesse ganhado na loteria, e depois ela desviava os olhos e eu me sentia como se tivesse perdido o bilhete. Como se tivesse perdido ela. E aconteceu um dia de uma corrente de ar dos trópicos criar uma tempestade bem em cima de nós. E as suas águas ficaram revoltas e não mais ritmadas. E eu submergi. E eu sentia meus pulmões inundarem num último esforço em direção à superfície, a qual nunca consegui alcançar. E aí cessei a luta. Submergi até me misturar com a areia no fundo. Caí entre duzias de arcas cheias dum tesouro que se mantinha secreto em suas profundezas, cuja existência e conteúdo ninguém jamais descobriria. 


1 de março de 2015

Drunk in love

                 Renasceu, depois de morrer tantas vezes, mas só pra morrer outras tantas. E sabia que ainda morreria muitas. E porque era assim e sempre seria. E porque talvez amasse do jeito errado e aquele amor lhe esgotasse a vida. E era uma apaixonada-romântica-trouxa-perdedora incurável, e até achava graça nisso. Talvez tivesse nascido com esse destino já traçado: morrer de amor. Beber amor, fumar amor, usar amor. E ela o bebia e usava e fumava. Nas madrugadas, voltava pra casa bêbada, trocando os passos, tateando a fechadura da porta. E no outro dia, enquanto a ressaca doía, jurava que nunca mais ia amar de novo. Só pra amar outra vez, só pra morrer outra vez. Amar era um caminho sem volta.