14 de abril de 2015

10 days without an accident

               

          Tenho assistido a vários filmes péssimos como se você os estivesse assistindo comigo, porque eu sei que eles te irritariam bastante. E porque eles são tão ruins que por alguns minutos eu paro de pensar em você e passo a pensar em como alguém foi capaz de ter uma ideia de filme tão estúpida e quem seria tão mais estúpido ainda de financiar aquilo. E esses minutos são curtos, porém tranquilos. 
           Me sinto presa naquela parte clichê daqueles filmes clichês (que eu não consigo parar de ver), quando a moça tá bem triste porque algo não deu certo no romance que parecia perfeito desde o início do filme. E fica escutando música de fossa e andando pela cidade que parece estar muda e meio cinza. Aqueles 10 minutos antes de chegar no final quando tudo se resolve com um ato louco e desesperado de amor. Mas eu nunca chego no final. Ninguém bate à minha porta às 3 da manhã me dizendo o quão erradas estávamos de não ter arriscado e que dali em diante ficaríamos bem. Ninguém me escreve um pedido apaixonado com um avião desenhando nuvens de fumaça no céu. Ninguém me sequestra num balão colorido com destino desconhecido ou me dedica uma música no show da minha banda preferida. Ninguém telefona numa madrugada inóspita dizendo que ouviu uma canção e que lembrou de mim e que, pra falar a verdade, sente muita saudade mesmo do nosso pequeno caos. Ninguém veio. E a cidade continua cinza. E a música triste ainda toca. E aqueles 10 minutos já viraram 10 dias.

5 de abril de 2015

Canto da sereia

            


             Ela tem dedos leves que quando se entrelaçam no meu cabelo, lembram as mãos também leves -porém enrugadas - daquela vó que costuma fazer tranças. Ela tem mãos tão leves que quando roçam a minha pele imitam o roçar de milhares de cílios de milhares de anjos. Ela tem o cheiro de uma manhã ensolarada de domingo e fala num tom de voz tão manso e apaixonante quanto aquelas músicas daquela banda que costumava ser sua favorita, e não há nada que ela pudesse me pedir com aquela voz que eu não fizesse. Ela se move lenta e ritmada como a maré quando tá enchendo e puxa a gente pro fundo. E se a gente não nada rápido de volta pra beirada, se afoga. Eu me afoguei. E nem me debati, só deixei ela ir me puxando pro fundo do mundo dela. E não nadei contra, porque eu queria mesmo que ela me levasse, talvez porque se afogar no cheiro dos cabelos dela me fizesse esquecer que eu tava afundando. Ela é como aquele peixe que vive no mais profundo do oceano e encanta suas vítimas com uma luz esperançosa, e de uma só vez os engole. E os devora. O devorador de almas. E ela me devorava. E ela me virava do avesso e de volta. Mas nessas horas ela me sorria de um jeito que me fazia sentir como se tivesse ganhado na loteria, e depois ela desviava os olhos e eu me sentia como se tivesse perdido o bilhete. Como se tivesse perdido ela. E aconteceu um dia de uma corrente de ar dos trópicos criar uma tempestade bem em cima de nós. E as suas águas ficaram revoltas e não mais ritmadas. E eu submergi. E eu sentia meus pulmões inundarem num último esforço em direção à superfície, a qual nunca consegui alcançar. E aí cessei a luta. Submergi até me misturar com a areia no fundo. Caí entre duzias de arcas cheias dum tesouro que se mantinha secreto em suas profundezas, cuja existência e conteúdo ninguém jamais descobriria. 


1 de março de 2015

Drunk in love

                 Renasceu, depois de morrer tantas vezes, mas só pra morrer outras tantas. E sabia que ainda morreria muitas. E porque era assim e sempre seria. E porque talvez amasse do jeito errado e aquele amor lhe esgotasse a vida. E era uma apaixonada-romântica-trouxa-perdedora incurável, e até achava graça nisso. Talvez tivesse nascido com esse destino já traçado: morrer de amor. Beber amor, fumar amor, usar amor. E ela o bebia e usava e fumava. Nas madrugadas, voltava pra casa bêbada, trocando os passos, tateando a fechadura da porta. E no outro dia, enquanto a ressaca doía, jurava que nunca mais ia amar de novo. Só pra amar outra vez, só pra morrer outra vez. Amar era um caminho sem volta.

4 de abril de 2014

Don't be afraid

Quando ela abraçava as pernas e se encolhia naquela posição fetal, eu não diria que ela tinha mais de cinco anos. Mas o seu sofrimento era de gente velha, como se tudo que passara tivesse gasto suas articulações, enfraquecido seus ossos, embranquecido seus cabelos. E ali encolhida ela gritava que estava cansada, que era demasiada a dor, o esforço. E em seguida, ela ficava dezenas de minutos em silêncio, encarando a parede branca. Às vezes se encolhia mais ainda, como se sentisse um frio intenso, e se balançava e murmurava coisas ininteligíveis. E n’outro segundo, sem aviso, gritava de novo e soluçava e dizia que estava enlouquecendo, tinha certeza. Não tenha medo, menina – eu queria lhe dizer. Ela engasgava com as palavras que saíam disparadas dos seus lábios, como projéteis saindo incessantes de uma metralhadora. E me atingiam aquelas balas. E perfuravam e agrediam e faziam enormes buracos nas minhas asas. E ela se abraçava cada vez mais forte, cada vez mais in. Mais um pouco e provavelmente viraria do avesso. Eu quero ir, me deixe ir! - ela gritava. E gritava assim, como quem grita numa sala inundada de conversas querendo se fazer ouvir. E eu tentava dizer que a escutava, mas ela me olhava como se não ouvisse, como se não entendesse, como se eu falasse em enoquiano. Às vezes ela fechava os olhos e ficava tão imóvel que qualquer um diria que estava morta. Eu temia que de fato ela estivesse. E por um momento eu fazia menção de tocá-la, mas ela abria os olhos e se encolhia assustada, distanciando do meu gesto como se adivinhasse, como se tivesse visto um segundo antes através das pálpebras. Então começava a sussurrar num descompasso uma música que lembrara, e ia recitando os versos como um mantra. Eu a encarava, parado ali, me sentindo um passarinho miúdo que caíra do ninho, tentando não me perder nas suas nítidas olheiras escuras, herança de noites em claro. Não havia mais nada ser feito, sabia o que viria a seguir. Não tenha medo, menina. – Eu disse outra vez. Ela não tinha.


Don't be afraid, you're already dead.

28 de fevereiro de 2014

Dois dias

            Sobra tanta dor. Sinto tanta vontade de gritar, tem muita coisa que eu não entendo e isso me dá uma sensação claustrofóbica. Tem dias que parecem durar séculos. Tem momentos que parecem ter acontecido há séculos. Sabe quando você era criança e, de repente, a energia acabava e tudo ficava completamente escuro? Sabe a sensação de tatear ao alcance de algo que te fizesse sentir seguro? E por alguns segundos você não se lembra como é a casa que você morou tantos anos, você não lembra a disposição dos móveis na sala. Você não lembra como chegar até o quarto da sua mãe, você não sabe como seguir o som da voz dela. Você fica apenas paralisado por alguns minutos, tentando não pensar nas coisas horrendas que poderiam te agarrar ali no escuro e ninguém perceberia, estreitando os olhos até que eles se acostumem à escuridão, mas eles nunca se acostumam. Eu nunca me acostumei. As vezes esse blackout acontece aqui, na minha cabeça. E é familiar a terrível sensação de tatear no escuro em busca de pensamentos seguros, tentando ouvir a voz que me guiaria até a caixa de fósforos mais próxima. É a mesma sensação de não reconhecer o lugar onde morou a vida toda. Não reconhecer as quinas e degraus da própria mente. Nunca soube como seria enlouquecer de verdade. Nunca parei realmente pra pensar onde estaria o limite da sanidade. Tenho esbarrado nele as vezes. Tem dias que parece que eu não vou aguentar. E eu ponho minhas mãos geladas em volta dos olhos, ordeno a mim mesma que pare de chorar. Pare de chorar. Como chegar até aquele pensamento seguro, nessa escuridão claustrofóbica? Como não esbarrar nas arestas dolorosas ao tatear até a saída? Como faz pra parar de doer? Como parar de doer? Por que tanta dor?