23 de fevereiro de 2012
Era uma vez uma rainha
Lá no alto do seu castelo ela estava, sentada em seu trono solitário. Eram apenas ela, sua coroa e uma garrafa de gim. Levantou-se, pôs a coroa em cima da mesa e estalou os dedos.
-Pois não, senhora?
-Vou sair e não volto.
-Desculpe?
-É isso mesmo que ouviu. Cansei, vou tirar férias de ser eu.
-E o castelo, senhora?
-Deixe como está, não estará mais vazio do que antes.
-Sinto muito, senhora.
-Não sinta, só desapareça.
Lá no alto do castelo um trono vazio, uma coroa e uma garrafa de gim.
24 de novembro de 2011
Tum, bate coração.
Quando eu não te tinha, não-te-ter era também um mal cardíaco que eu possuía, um mal que fazia meu coração pesar como chumbo. Coração machucado como o último morango no fim da feira de domingo, palpitando como martelo que enterra estaca em terra seca e dura.
E Hermione, minha gatinha, surgia e deitava no meu peito. E só assim pro meu coração bater direito, no compasso do seu coração de gato. Seu coração batia no meu e o chamava pra dançar conforme ele fazia. E só assim, pelo menos durante a noite, meu coração - machucado, de chumbo, palpitante como martelo que enterra estaca em terra seca e dura - batia direito, no compasso de um coração de gato.
Hoje não tenho nada. Nem coração, nem gato.
E Hermione, minha gatinha, surgia e deitava no meu peito. E só assim pro meu coração bater direito, no compasso do seu coração de gato. Seu coração batia no meu e o chamava pra dançar conforme ele fazia. E só assim, pelo menos durante a noite, meu coração - machucado, de chumbo, palpitante como martelo que enterra estaca em terra seca e dura - batia direito, no compasso de um coração de gato.
Hoje não tenho nada. Nem coração, nem gato.
21 de outubro de 2011
Are you there, god? It's me.
I found god, on the corner of the First with Amistad.
Where the West were all but won.
All alone, smoking his last cigarette.
I said “Where you’ve been?”
He said “ask anything”
“Where were you when everything was falling apart?”
You found me – The Fray
Apoiei o peso do meu corpo e da minha alma naquele banco de pedra. Ele estava ali sentado. Meu deus, eu não pensava em deus fazia tempo.
-Oi, deus, ou qualquer que seja o seu nome. Pra facilitar, vou te chamar de Zé. Eu gosto desse nome. Então, Zé, as pessoas costumam falar com você no silêncio dos pensamentos, achei que esse lugar seria silencioso o suficiente. Só há o som dos pássaros e o vento que balança as margaridas. E eu buscava algo menos abstrato.
Pois bem, eu tive a ousadia de escolher um caminho pra mim. Alheio a todo e qualquer julgamento externo. Mas nunca se pode fugir deles, não é? Eu não entendia, no começo. Mas aquilo entrou na minha vida. E continua nela depois de todo esse tempo. E eu gosto tanto, Zé. Me faz bem, sabe? Eu dediquei todo o meu amor àquilo. Me escuta, você sabe o que é ser nada? O que é se sentir vazio? Aquilo me preencheu. E então o julgamento me atingiu como uma bofetada. E falaram em seu nome, dá pra acreditar? Como ousaram? O meu amor não era digno, foi o que disseram. Que poder eles tinham? E o amor puro que eu tinha, agora luta com a raiva por espaço. O meu coração era só amor, eles destruíram isso, Zé.
Minha cabeça pesou e meus olhos arderam. Adormeci.
17 de outubro de 2011
Ah, eu gostaria de ter asas II
De repente, ali estava. Na beirada, como da última vez.
-Ei, Cas.
-Olá, minha menina.
-Por que está usando suas asas hoje?
-Pensei que gostasse delas.
-Não seja bobo. Ou melhor, não me faça de boba. Se veio me buscar, vamos logo. Estou pronta.
-Não, pequena. Vim pra te lembrar que está viva. Levanta-te! Quebra essa casca dura que te impede de executar até o mais simples movimento.
-Tenho medo, você sabe. E odeio sentir medo.
-Mas que graça teria se o sinistro medo sumisse de súbito?
-Olha como são lindas aquelas margaridas naquele pasto lá longe... Imagino como seria caminhar entre elas.
Vislumbrei a paisagem.
-Sabe que pularei e te salvarei como da outra vez, não é? Pois bem. Descobre a que veio, e então irá.
E dessa vez, foi ele quem pulou.
*Pra fazer o mínimo de sentido: Ah, eu gostaria de ter asas
-Ei, Cas.
-Olá, minha menina.
-Por que está usando suas asas hoje?
-Pensei que gostasse delas.
-Não seja bobo. Ou melhor, não me faça de boba. Se veio me buscar, vamos logo. Estou pronta.
-Não, pequena. Vim pra te lembrar que está viva. Levanta-te! Quebra essa casca dura que te impede de executar até o mais simples movimento.
-Tenho medo, você sabe. E odeio sentir medo.
-Mas que graça teria se o sinistro medo sumisse de súbito?
-Olha como são lindas aquelas margaridas naquele pasto lá longe... Imagino como seria caminhar entre elas.
Vislumbrei a paisagem.
-Sabe que pularei e te salvarei como da outra vez, não é? Pois bem. Descobre a que veio, e então irá.
E dessa vez, foi ele quem pulou.
*Pra fazer o mínimo de sentido: Ah, eu gostaria de ter asas
2 de agosto de 2011
Be my baby.
Sabe do que acabo de lembrar? Aquela manhã, na biblioteca. Você ali, tão em paz folheando livros e dentro de mim um pandemônio completo. Diga a ela. Diga agora. Só tem vocês duas aqui!
Tremia. O fone no ouvido, tocava The Fray pela milésima vez.
If I don't say this now I will surely break
As I'm leaving the one I want to take
Forgive the urgency but hurry up and wait
My heart has started to separate
As I'm leaving the one I want to take
Forgive the urgency but hurry up and wait
My heart has started to separate
Oh, oh Be my baby, I'll look after you..
Seja minha garota - eu queria te dizer. Eu vou cuidar de você. Abri a boca:
- E-er. E-eu... - Gaguejei.
Fui fraca, covarde. "Mensagem enviada com sucesso!". Corri.
- O que você tem? Parece Mal de Parkinson.
- Tô com frio, me deixa.
- Mas o dia está tão ensolarado.
E tava um sol dos infernos mesmo. Dentro de mim.
Sorri.
Sorri.
*Se eu não disser isso agora eu certamente enlouquecerei
Como se deixasse a única coisa que quero ter
Perdoe a urgência, mas apresse-se e espere
Meu coração começou a se partir.
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