26 de abril de 2010

Nightmares

         Lembro-me de uma menininha que não temia coisa alguma. Para ela o escuro era um detalhe, uma oportunidade. Hoje ela tem medo de fechar os olhos. Imagens, cores e sons. Um estranho que a observa do canto do quarto, sem nunca piscar. Se tivesse voz, ela perguntaria o seu propósito, se tivesse força, ela levantaria e o expulsaria de lá, mas algo a deixa imobilizada, como se amarras invisíveis em volta dos seus braços a prendessem ali. Uma raiva lhe consome, e com a raiva vem o medo: era impotente quanto a ele. O silêncio mantido permite ouvir os acelerados batimentos cardíacos dela como se o seu coração, além dos seus olhos, fosse o único a notar aquela presença.







1 de abril de 2010

" Toy Story " *

                A neblina que te envolve me impede de enxergar-te. Uma neblina furta-cor que me embaça a visão se olho diretamente. Não te olho. O efeito que provocaria, tal como a medusa, me transformaria em pedra. Um balde de água gelada no meu ego. Posso ver, você está bem. Percebo agora. Coisas que joguei fora deixaram um buraco em mim. E como será? Não sei. Apenas sei que tudo deixa de ser com um tempo. Então, de que valeram todos os esforços que fiz para salvar-te? Ainda assim caíste na gaveta de “quinquilharias” da minha memória. Como um brinquedo que insiste em quebrar-se e não há nada mais a fazer por ele. É o tipo de coisa da qual sentiremos falta. Falta que provoca feridas incuráveis. Sabe-se que brinquedo como aquele não se fabrica mais, mas agora ele não passa de algo pelo que não se pode fazer mais nada. E como não há coragem para jogá-lo fora, guarda-se ali, como uma lembrança do quão reluzente ele já fora. E talvez um dia à noite, numa noite mágica, procurando um livro que possa ler antes de dormir, você ache o tão estimado pertence e só assim lembrará a falta que sente e o tanto que quis esquecer-se dele.
                    
 Feliz Páscoa. Viva à hipocrisia, viva à futilidade. Viva às delícias pagãs e aos novos brinquedinhos estúpidos que vêm dentro delas a cada ano que passa.



17 de março de 2010

Só, somente só.

Fui enfileirando cada tijolinho daquele muro que cerca meu forte e só agora percebi que acabei por me enclausurar aqui, deixando todos de fora.
Sentei no chão e ri. Ri de sacudir, um riso histérico, digno de camisa de força. Ri da minha própria tragédia. Sou prisioneira.
Não importa o quão alto eu pule, o quão alto eu grite. Sem perceber, trabalhei com firmeza naquele muro. Um trabalho de já alguns anos, muitas vezes interrompido, muitas vezes atrapalhado. Mas os destruidores ficaram mais e mais escassos com o passar do tempo e não mais tentaram. Devem ter se cansado, acredito, assim como estou agora. Sento e apoio minha cabeça no joelho. Tenho vontade de chorar, mas aqui isso é intolerável. Não é permitido fraqueza, não é permitido remorso, todas as emoções ficaram do lado de fora. Aqui estou eu, rindo da ironia que durante tanto tempo preguei e que acabou por pregar uma peça em mim. E agora tenho a plena certeza de que serei a única que terá de morrer, quando for a hora de morrer por mim.

16 de março de 2010

Trash



De repente eu percebo. Paro por um segundo e olho meu reflexo naquele carro. Me sinto estranha, como se não coordenasse o meu corpo. Agindo mecanicamente, olho quando chamam meu nome, balanço a cabeça afirmativa ou negativamente quando me fazem perguntas. Quando a resposta precisa ser um pouco mais elaborada a minha voz sai num tom quase inaudível, não conseguiria falar mais alto se tentasse.  Tenho vivido só do essencial. Não me importo mais com datas ou presenças. Estou aqui apenas em corpo, um recipiente vazio. Minha alma e mente há muito vagam perdidas por aí.  Esqueci o que é ser, o que é sentir. Não ouço mais músicas, não assisto TV e não atendo o celular. Em mim só resta a sombra daquele pesadelo que tive certa noite. Não saberia dizer se estava realmente dormindo, se tudo foi real, mas agora não importa mais.  Minha sensação é de estar submersa. E poucas vezes venho à tona quando ouço aquele riso que ecoa em meu ouvido como o tilintar de milhares de objetos metálicos caindo no chão ao mesmo tempo. Aquele riso que era o meu escape, que me resgatava não importando o quão profundo eu estivesse. E aí, quando se faz silêncio, acabo por submergir ainda mais. Melhor parar agora. Eu só quero que acabe, que passe. E se isso não acontecer, eis aqui a última coisa que escrevo.

21 de fevereiro de 2010

Degradê.

           Eu, de verdade, já dispenso teus assuntos. Te ver já não faz meu coração disparar como antes. Depois de um tempo percebemos que as coisas e as pessoas não são como pensávamos.  Talvez seja a paixão que cobre nossos olhos como um óculos, deixando num tom cinza os defeitos e salpicando de verde berrante as qualidades do outro. É, a paixão. Com uma lente degradê e não totalmente escura como a lente do amor, que nos cega completamente. Então, visualizamos o outro acima de todas as necessidades, num pedestal. Por um bom tempo, pensamos na bagunça que seria a nossa vida sem essa pessoa. E o mundo se partiria em dois, o caos reinaria. Mas como todas as outras efemeridades da vida, assim foi para mim. Você não acha que já está na hora de eu ter a minha vida de volta?
          Ponho meu óculos de lado e enxergo um dia claro. Meus olhos lacrimejam ao olhar diretamente para o sol, mas me sinto confortável. O céu agora está claro. Os formatos das nuvens por um momento me fazem lembrar de ti, mas assim como as nuvens, as lembranças são varridas pelo vento. Desculpa, meu bem, mas o meu mundo é o mesmo sem você.