É tudo tão frágil, Passarinho. Vem cá, voa até aqui e me conta. Eu entendo. De ser torta eu entendo. E porque essa vontade de morrer eu também tenho, é minha companheira antiga. Mais perto de mim que a minha própria sombra. Só que ela é mais densa e palpável que uma sombra. Ela é pesada, escorregadia. As vezes eu ando rápido tentando me livrar dela, só que ela não me larga. Com o tempo eu aprendi a arrastá-la comigo pra onde eu vou, me acostumei ao peso, mas nunca me deixando dobrar de vez. Tem dias que parece que não vai dar e eu tropeço nessa vontade e faz todo sentido do mundo. Mas eu sou forte, tenho resistido. Resista, Passarinho. Eu aguento o seu peso também. Eu divido minha força com você, e desafiando as leis da matemática, ela não diminuirá.
19 de julho de 2015
25 de junho de 2015
A dor impaciente se espalha em ondas que emanam do centro do meu corpo até as extremidades, e essas estão ironicamente dormentes com o frio. As vezes eu me sinto tão sozinha que a sensação é quase como uma claustrofobia inversa, mas igualmente incômoda. Como estar numa sala bem grande e vazia. Completamente vazia. E as vezes a solidão é tão palpável que eu sinto que poderia cortar ela em fatias e por em caixas que eu enviaria a todos aqueles de quem eu sinto falta. Meu estômago dói e eu aproveito pra chorar. Chorar por tudo que era pra ser e por algum motivo não foi, chorar pelo que se perdeu do mundo, das pessoas, de mim mesma.
28 de maio de 2015
Canção pra não voltar
Hello, Stranger
Te escrevo porque dia desses me peguei pensando em voltar pra casa. Pra falar verdade, até voltei, queria ver com meus próprios olhos. Descobri que a casa continua vazia. E triste. Cheguei a passear pelo jardim que agora está coberto por uma mata alta e selvagem. A cerca que era branca, agora está descascada e coberta de limo. As margaridas no canteiro foram sufocadas por ervas daninhas. Parei na soleira. Arrisquei entrar, com receio, já que a porta de entrada pendia nas dobradiças. Me deparo com um cheiro fétido de morte e mágoas, algumas garrafas jazem no chão, no mesmo lugar onde outrora foram deixadas. Eu sei, porque eu as bebi. Elas eram minhas únicas companhias depois que você se foi. A poeira se assentou nos móveis corroídos pelo tempo, e eu até consigo ver uns pequenos grãos que dançam com o vento, iluminados pela fraca luz do sol que se espreme pelas brechas na janela fechada com tábuas. O papel de parede, vencido pela umidade, possui um aspecto sombrio e não mais florido. Um sufoco claustrofóbico cresce incômodo, e já dando meia volta, me deparo com o porta-retratos, tão coberto de poeira que eu não conseguiria identificar o rosto embaçado na foto, se não fosse eu mesma que a tivesse tirado. Tudo aquilo é tão familiar. Tudo estava como eu tinha deixado. O cinzeiro ainda cheio, em cima da mesinha de canto, do lado do sofá no qual eu passava horas e horas sentada, encarando minha desintegração. Eu costumava viver e transitar entre aqueles cômodos, mesmo depois da sua partida. Não que eu esperasse que você voltasse, mas porque eu tinha mais medo do mundo lá fora do que dos fantasmas que me assombravam ali dentro. Lembro que naquela época eu tinha medo de enfrentar o mundo sozinha, então eu fiquei. Fiquei. Você sabe que eu fiquei. E que ficaria até o fim, até o fundo. Até o dia em que eu não consegui mais. Um dia, entre uma garrafa e outra, não mais soube driblar a minha claustrofobia. Abandonei a casa e fui pro mundo, coração no bolso e de mãos vazias. Nem os LP's eu levei comigo. Naquele dia que eu também parti, eu descobri: o mundo - mesmo desumano e assustador e cruel e insensível às minhas dores - era a única chance que eu tinha.
Não volte pra casa, meu amor, que a casa é triste.
20 de maio de 2015
Quiet rage
Ela detestava cigarros. Mas tinha dias que ela poderia fumar uma caixa inteira. Uma caixa de caixas. Tinha dias que o seu coração queimava e ardia. Tinha dias que ela tinha vontade de socar a parede tão forte até abrir um buraco tão grande quanto o que tinha dentro dela. Tinha dias que ela passava o dia inteiro sem pronunciar nenhum som. Tinha dias que ela tinha vontade de gritar PUTA MERDA, PUTA MERDA, PUTA MERDA. Tinha dias que ela sentia um ódio desumano, noutros um amor incontrolável. Tinha dias que a sua dor no ombro se fundia com a sua dor no peito que parecia um vórtex descontrolado sugando tudo pra dentro dela, tudo vindo de encontro a ela em velocidade máxima, com a força de algumas toneladas. Tinha dias que ela acordava com pensamentos tão aterrorizantes e levantava na tentativa de respirar com o que parecia o pulmão de um asmático. Tinha dias que ela ficava no escuro da hora em que acordava até a hora que dormia. Tinha dias que ela acendia todas as luzes e velas no quarto. Tinha dias que ela bebia até perder o tato. E ela frequentemente perdia.
Essa manhã quando acordou, ela já sabia que hoje era um daqueles dias em que tudo isso aconteceria. De vez.
17 de maio de 2015
incoerências
Tem um pensamento que me deixa automaticamente de mau humor quando eu acordo. E que me dá uma vontade incontrolável de quebrar coisas. E é esse mesmo pensamento que me deixa inerte um dia inteiro, sentada na minha cama ouvindo músicas que não tem nenhuma letra, assistindo filmes que não tem final, contando passarinhos que passam voando pela janela. Só hoje foram 14. São 14h. É a quinta vez que a náusea me faz levantar. Na boca, o gosto acre de ressaca. Encaro o espelho do banheiro, de quem são esses olhos? O sangue escorre pelo nariz, limpo com as costas da mão. Olho a gota solitária que contrasta com o branco da pia. Eu tava pensando em quê? Nem lembro agora. Volto ao meu quarto. Volto à inércia. Volto a inexistir.
Eu tinha um amor, eu era bem melhor, mas tudo deu um nó.
Eu tinha um amor, eu era bem melhor, mas tudo deu um nó.
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