22 de março de 2013

Broken Crown



             O que é que há por trás do sorriso da rainha? E por que às vezes ela sorri com a boca, mas não com os olhos? Por que esconde os olhos a rainha? Atrás das lentes, atrás das mãos frias. O que se passa na cabeça da rainha? Por que chora? Do que sente falta? Por que ou por quem ela bebe? Por quem ela espera sentada? É de ouro esse trono ou é de lata? É tristeza por trás desse sorriso, rainha? Essa sujeira aqui no trono é mofo? É impressão minha ou a sua coroa está quebrada? Que olheiras são essas, minha rainha? É de cansaço esses ombros curvados? Levanta, minha querida. Abdica desse posto falido. Você não governa nem a si mesma. Afinal, quem te elegeu? Onde está a sua guarda real? Não ouço os gritos de vida longa, nem passos. Não tem ninguém lá fora, senhorinha. Foram todos embora. Você está sozinha.




  1. Raise my hands
  1. Paint my spirit gold
  1. And bow my head
  1. Keep my heart slow 
  1.                                      I will wait - Mumford and Sons

1 de fevereiro de 2013

Mal súbito




As vezes você sente uma tristeza súbita, como se de repente se desse conta de uma realidade assustadora. Você está por um fio. Você não tem mais direito de exigir nada do mundo. E já fez tanta coisa errada, já magoou pessoas que ama e que amavam você. Houve um tempo em que você brilhou, lembra? Mas agora parece estar embaçado. Você até enxerga embaçado. E aí se lembra da receita do oftalmologista esquecida há anos naquela gaveta, no meio das muitas quinquilharias que você guarda lá e dói pensar sobre. Naquela mesma gaveta também estão jogadas as tampas de garrafas de vodca que você abriu e não precisou fechar, as provas daquele vestibular que você não passou, a matrícula daquele curso que você abandonou, mesmo sendo seu sonho. E quantos outros sonhos não estão também jogados lá naquela mesma gaveta? Embolados nos emaranhados de erros egoístas. Quilômetros de ciúme e mágoa. Também tem algumas garrafas, cheias das lágrimas dela. Todas as visões das barbaridades que você aprontou também estão ali jogadas, em mini-clipes. Os ecos dos gritos que você deu. Ultimamente o peso daquela gaveta tem te incomodado, mas não é como se você pudesse se desfazer dela. É como se cada uma daquelas milhares de coisas estivessem tatuadas pelo seu corpo. E você sente tanta vergonha. Para pra pensar em como tudo começou a desabar. Nos muitos tropeços seguidos, sendo quase impossível se manter de pé, estável. Vê seu reflexo na tela do celular, as olheiras. Quem seria capaz de amar algo como você? 

14 de agosto de 2012

Do lado de fora

 Father, into your hands. Why have you forsaken me? In your eyes, forsaken me. In your thoughts, forsaken me. In your heart, forsaken me.


Deixa eu te atualizar sobre os recentes acontecimentos da minha vida, pai. Fiquei doente, mas já sarei, passei no vestibular - naquele curso que você acha medíocre -, deixei de amar você. E de agora em diante vou ser dura com você, porque você sempre foi duro comigo. E as vezes é bom agir mal com alguém simplesmente porque esse alguém agiu mal com você. É bom não ser condescendente, pra variar. Eu nunca soube o que - em mim - te irritava tanto. Você sempre buscou cada erro, cada detalhe minúsculo pra me expor como um fracasso à sua família perfeita. Eu nunca coube na sua linda família. Eu nunca coube na sua vida pateticamente boêmia. Eu nunca coube no seu castelo. Meus sonhos nunca valeram muito pra você. Sabe, pai? Te amei enquanto você me julgava, enquanto você me esquecia na escola. Eu realmente quis um dia caber nesse seu mundinho. Nesse seu castelo construído de mentiras e pose. Agora eu percebi que esse mundo em que você vive é pequeno demais pra mim. Coloquei os seus sonhos numa caixa que deixei no seu velho calabouço. Agora vou seguir os meus. E esse castelo só me perdeu, viu, pai? 



"Você foi medido, você foi pesado e considerado insuficiente."



24 de março de 2012

Let it go




Eu era o seu apoio, lembra? Bêbada, sóbria, alegre ou triste. Te levantei tantas vezes quantas você caiu. Briguei e bradei insultos aos que te apontavam. Eles não te conheciam, eu sim. Éramos eu e você contra o mundo. Fiz vista grossa para os seus erros e enquanto se embriagava em álcool e angústias, fui ouvinte, confessionário, divã. Atravessei os invernos mais rigorosos, dos quais os meus casacos te protegiam. Fui mãe, irmã e até vilã. Mas sempre pra te ver maior. Por você fui a New York e voltei. Procurei em todos os hotéis da 5a avenida. Fui dicionário, tradutora, moleque de recados. Eu nunca te disse não, percebe? Exceto para suas ideias auto-destrutivas. Eu era, eu fui. Hoje tudo que me restou foi ser um chiclete mastigado, colado entre as folhas daquele caderno da escola. 



I don't know how we ended up here
I don't know, but it's never been so clear
We made a mistake, dear.
Nothing left but the memories of when I had my best friend.
                               Through the threes - Low Shoulder

17 de março de 2012

Tic-tac, tic.

As vezes sinto como se tivesse parado no tempo. Estaco enquanto todos avançam. Durmo enquanto dançam. Sou triste enquanto os outros festejam. Tem uma tempestade estagnada na minha janela. As vezes estou cá deitada, respirando tédio e exalando solidão e então alguém sopra vida em meu ouvido. E do nada desato a tomar banho, me limpar, e tenho vontade de sair por aí, dar boa tarde a alguém.Tenho saudade de sorrir.
Sou como um balão murcho que as vezes sonha com espinhos, as vezes com grandes sopros.